sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

2ª PARTE



2ª PARTE

Houve, entretanto, um homem que tinha tentado combater pacificamente os cátaros e a sua religião dualista: um jovem cónego castelhano, o futuro S. Domingos. Alguns anos antes, Domingos obtivera do papa o reconhecimento da Ordem dos Frades Pregadores. S. Domingos nas suas viagens pela Europa fica tão chocado com a falta de liberdade de expressão como com a forma como o verbo é usado pelos vários povos europeus: com a espada. Defendia que a melhor forma de converter as pessoas ao catolicismo era pela força da palavra, pelo poder da expressão. E é assim também que encara as cruzadas e a luta contra a heresia, nomeadamente a cátara. Os êxitos de S. Domingos no combate à heresia cátara foram reais mas limitados. E, seja como for, não impediram a cruzada.

Esta guerra, contra os cátaros, que o rei de França não queria ver ser os barões do Norte a fazê-la. Normandos, flamengos, da liga de França, da Borgonha, Champagne e ainda alemães, bávaros e austríacos. Um exército maravilhoso e grande, como cantava um poeta da época. No comando um chefe temível: Simon de Monfort. Simon de Monfort é um guerreiro, um homem vigoroso que tem o sentido da batalha e o sentido estratégico mas é um Senhor modesto que possui apenas algumas propriedades na zona de Paris. Um homem com uma fé profunda mas também um homem demasiado brutal. Ora, acontece que uma lei papal dizia que a terra conquistada pertencia a quem a conquistasse (pagando alguns tributos à Igreja) e as terras cátaras eram muito interessantes devido às construções aí edificadas e ao comércio mediterrânico a que davam acesso. Eram por isso terras ricas e cultivadas, terras que fascinam potenciais senhores. Para além do desejo natural que Simon de Monfort poderia ter tem uma outra coisa que outros não possuíam para o colocar na posição de escolhido para tomar as terras do Sul de França: a bênção da Igreja.
Mais tarde Simon de Monfort exorta os católicos da região a abandonarem a sua terra, abandonarem os heréticos antes que o seu exército avance. O conselho da terra reúne e os habitantes da região decidem - católicos e cátaros - que não abandonam as suas terras e que, sobretudo, não estão interessados em mudar de senhor.
A guerra vai infligir um rude golpe à sociedade cátara mas também à sociedade da Aquitânia e do Languedoc no seu conjunto: católicos e cátaros à mistura. Não será apenas em Béziers que será massacrada gente que se calhar nunca tinha ouvido falar da heresia. Promovido a Visconde de Carcassonne três semanas depois do massacre de Béziers, Simon de Monfort consegue em apenas três anos isolar completamente Toulouse. Em 1215, o IV Concelho Ecuménico do Latrão, a maior assembleia reunida até então pela cristandade romana renova solenemente a condenação da heresia cátara, reforça o direito repressivo, destitui Raimundo VI e outorga os respectivos títulos e domínios a Simon de Monfort. Será, no entanto, preciso muito mais que a guerra e os concílios para restaurar a unidade da Igreja, impor a todos o batismo católico e acabar com o batismo de espírito dos heréticos. Os cátaros diziam que Cristo se ensombrou, escondeu a sua luz celeste à sombra da forma humana: "Senhor não tenhas piedade da carne mas sim da alma que ela retém como prisioneira".
Num belo dia de 1217, passando a vau o Garona, Raimundo VI consegue reentrar em Toulouse. Congrega em seu redor uma população numerosa que se subleva imediatamente e reconstrói as muralhas arrasadas pelos franceses. Nove meses mais tarde, ao cercar a cidade rebelde, Simon de Monfort tomba para sempre com a cabeça esmagada por uma bala de catapulta disparada por mulheres. "E a pedra caiu a direito onde devia cair. Em cheio no elmo de aço do conde acertou. E os olhos, miolos, dentes, fronte e queixada, tudo num ápice saltou. Caiu por terra. Morto. Lívido. Ensanguentado". O grande poema da Aquitânia, a canção da cruzada, retrata a alegria que se apossou da população de Toulouse e a dor que se abateu sobre o campo dos cruzados. A morte de Simon de Monfort é o sinal que faz disparar a guerra de libertação.
Os atores que sobram são Raimundo VI, o velho conde, Raimundo VII, seu filho e o jovem conde de Toulouse, e o filho de Simon de Monfort: Amouris de Monfort. Há uma diferença enorme de personalidades entre Raimundo VII e Amouris. Raimundo VII era muito combativo, enérgico e tinha sido o primeiro homem a provocar uma derrota a Simon de Monfort enquanto que Amouris de Monfort era um homem sem a capacidade militar de seu pai. Numa determinada altura Amouris encontra-se com o rei de França e devolve todos os títulos e propriedades recebidas do rei. E, nessa altura, a guerra muda de natureza. Nos próximos anos a guerra de libertação religiosa transforma-se numa guerra de conquista de bens e propriedades para a coroa francesa.
Mas, por enquanto, a contraofensiva do Sul marca pontos. E a igreja cátara levanta de novo a cabeça por todo o lado. O quotidiano dos prefeitos cátaros é uma vida comunitária, não encerrada em claustros mas vivida em casas situadas no coração das vilas e aldeias. À imagem dos apóstolos trabalham mesmo quando são de nascimento nobre o que entra em rutura total com a sociedade feudal. O prefeito cátaro é um religioso que observa uma regra mas que também tem almas a seu cargo. É ao mesmo tempo um monge e um cura de paróquia.
Tal como na Quaresma católica, o peixe ficava de fora das proibições alimentares. Acreditava-se então que nascia dentro de água por geração espontânea. Os cátaros rejeitavam o sacramento da Eucaristia. Para eles a hóstia não passava de um simples pedaço de pão. Jamais poderia ser o corpo de Cristo. No entanto, em memória da última ceia abençoavam ritualmente o pão quando o partilhavam.
À data da morte de S. Domingos, em 1221, os conventos Dominicanos já se tinham multiplicado por toda a Europa Ocidental. De Toulouse a Paris, de Valência a Bolonha.
Em 1227, a cruzada real está em marcha e pela frente encontram um país exangue devido a dezassete anos de guerra. Imediatamente a seguir à derrota da Aquitânia, em 1229, a Igreja Católica faz o balanço. Era necessária uma instituição que se encarregasse sistematicamente de reprimir e suprimir os heréticos. É a Inquisição que passa a exercer funções desde 1233 e que se encarrega desta missão. A Inquisição não só será totalmente independente do poder militar e político como também é totalmente independente das arquidioceses locais. Não depende senão do Papa e de si mesma. A Inquisição é entregue aos Dominicanos pois estes são opositores teológicos dos cátaros.
O catarismo não era a primeira heresia que atacava a Igreja. A Igreja sempre tinha sabido desenvolver novos anticorpos. O trabalho da Inquisição vai ser o de um confessionário obrigatório itinerante. Os inquisidores não são muito numerosos e a inquisição não é uma instituição rica, sobretudo no seu inicio. Os inquisidores têm diante de si uma tarefa imensa. Têm que passar por todas as localidades, cidades, vilas e aldeias e interrogar as pessoas. Assim, a Inquisição terá que funcionar como um tribunal itinerante. Todas as confissões eram tratadas como confissões em sede de justiça. Os documentos eram devidamente preservados, e por vezes copiados ou recopiados para serem enviados para outro local onde teriam melhor guarda ou onde se poderia dar seguimento com celeridade ao processo. Todo o trabalho tinha como objetivo conseguir descobrir quem eram os ministros heréticos de qualquer seita e afastá-los.
Mas no Languedoc a tarefa da Inquisição não foi fácil pois as populações eram particularmente hostis ao seu trabalho. A violência das populações reflete a vontade existente de fazer surtidas para roubar os documentos conseguidos pelos Inquisidores. Foi o que aconteceu em Avignonet durante a noite da Ascensão de 1242. Era de Montségur o comando que tinha descido para assassinar os inquisidores em Avignonet. Alpendurado a 1.200m de altitude sobre um esporão dos Pirenéus, Montségur é, por excelência, o símbolo emblemático do drama cátaro. Pequena localidade fortificada erguida à medida das necessidades da igreja cátara servia de refúgio à hierarquia que fugia da cruzada e da Inquisição. Mais de 200 prefeitos e perfeitas e outros tantos laicos, entre os quais uma guarnição de uma centena de homens, tinham-se aí instalado.
Um ano após o massacre de Avignonet, o exército real, apostado em cortar a cabeça do dragão apertava o cerco a este sítio. A praça-forte não se rendeu senão ao fim de dez meses. Após o massacre das duzentas pessoas em Montségur, há registos de cátaros, fossem da hierarquia ou laicos, que fogem e se refugiam na Itália, sobretudo na Lombardia. A paz que aí encontram não dura muito.
As hierarquias cátaras acabam por se verem constrangidas ao reduto fortificado de Cirlien. Cirlien será um novo Montségur. Assediada a praça rendeu-se a 1276 e duzentos prefeitos e prefeitas foram queimados. Nos Balcãs, em contrapartida, a heresia dualista, transformada em religião de Estado na Bósnia mantém-se até à conquista turca no século XV. Recusando aliar-se, tanto à Igreja de Roma como à Igreja Ortodoxa, os bósnios, se bem que de etnia eslava, passam para o Islão. Os seus descendentes são os atuais muçulmanos da Bósnia.
O exílio, a prisão, a morte. A Inquisição no Languedoc quase conseguiu atingir inteiramente o seu objetivo. Podia julgar-se a heresia cátara completamente erradicada quando em 1300 aparece no condado de Fois um prefeito de verbo afiado, Pierre Auhtier.
"As igrejas são as casas dos ídolos porque as estátuas dos santos que lá existem são apenas ídolos e todos aqueles que adoram ídolos são idiotas pois foram eles próprios que os modelaram com uma chave e outros utensílios de ferro".
Em 1300 qualquer coisa tinha mudado. A pregação de Pierre Authier já não alcançava êxito junto dos nobres e dos burgueses. Nesta altura, ao invés do que se passava nos primeiros tempos do catarismo, a heresia dualista colhe mais adeptos junto dos camponeses e das massas de trabalhadores. O catarismo torna-se uma religião popular. Pierre Authier, em 1284 é um homem sem problemas. Trabalhava para o Conde de Fois e tinha uma carreira promissora. Um dia, após uma conversa com o seu irmão Guillaume sobre a heresia descobre em si uma vocação cátara e resolve partir da região para a Lombardia onde encontra comunidades cátaras. Durante quatro anos fica na Lombardia a estudar o catarismo e ao fim desse tempo torna-se prefeito. Poderia ter ficado na Lombardia e continuar aí a sua pregação. Mas decide voltar à região de Fois. Durante dez anos quase não vê a luz do dia uma vez que vive escondido em caves e grutas. Anda um pouco a pé apenas durante a noite e é à noite que faz os seus percursos das viagens que precisa fazer. Isto leva-o a ficar doente e fraco. E, no entanto, executa a sua decisão de voltar a Fois com uma força e uma fé extraordinárias. É verdadeiramente o último grande personagem do catarismo antes de Bernard Guy, o grande inquisidor tomar em mãos a tarefa de exterminar a heresia dualista.
Graças aos registos de Jacques Fournier, os registos da vida de certas aldeias é conhecida em todos os seus pormenores quase diários. Este cisterciense, bispo de Parmier foi um inquisidor fora do vulgar com uma paciência e uma curiosidade sem limites.
No início do século XII, a Igreja Católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros (kataroi, puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de Albi, na qual vivia um certo números de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sul da França.
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal. Não concebiam a ideia de inferno, pois no fim o deus do Bem triunfará sobre o deus do Mal e todos serão salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval, nem matavam qualquer espécie animal.
Os cátaros organizaram uma Igreja e seus membros estavam divididos em Crentes, Perfeitos e Bispos. As pessoas se tornavam Perfeitos (homens bons), pelo ritual do congelamento ( esta cerimonia consistia na oração do pai nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição. Tocava-se a cabeça do iniciante com o  Evangelho de S. João , o ritual terminava com o beijo da paz), faziam voto de castidade, cabendo-lhes a guarda, a transmissão e a vivência da fé cátara. Os Crentes participavam do ofício divino, escutando o sermão de um Perfeito, dividiam o pão entre si que não era considerado o corpo de Cristo. Os Crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, frequentavam a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos, contribuíam para a sobrevivência dos Perfeitos, recebiam o consolament nas vésperas de sua morte. Desta forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.
Cada Igreja Cátara tinha um bispo, o primeiro se estabeleceu no Norte da França por volta de 1149. O voto de pobreza ficou ameaçado pelo desenvolvimento de igrejas e bens materiais. Em 1167, realizou-se o Concílio de Saint-Felix de Caraman, no Languedoc, presidido pelo bispo Nicetas de Constantinopla (hierarca bogomilo), que exortou os heréticos a adotar um dualismo absoluto, organizando os bispados do Ocidente.
Durante o período das perseguições as Igrejas Cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de Crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
Devido a propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combatê-la, sendo que no início tentava converter os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando medidas trágicas pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo.
A Igreja Católica estabeleceu a repressão as heresias por meio de concílios, exigindo que o poder secular participasse do processo. Desta forma, através do estudo do cânone 27 do III Concílio de Latrão (1179) e do cânone 3 do IV Concílio de Latrão (1215), verificar-se-á os princípios adotados pela Igreja Católica para reprimir a doutrina cátara. Embora o conteúdo desses cânones não tenha sido inteiramente obedecidos, percebe-se a necessidade que a Igreja Católica tinha de eliminar a heresia cátara, pois esta ameaçava seu poder. A Igreja só poderia manter-se no poder com a certeza de que era a verdadeira herdeira de Cristo e de que passavam por ela os caminhos que levavam a salvação.
A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia á província de Narbona, somente a região de Albi estava ligada a província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux.
O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc, pode ser explicado pela situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
O arcebispo Berengário de Narbona, da família real de Aragão, descuidará dos assuntos espirituais em favor de questões políticas. A justiça só era executada mediante pagamento e o clero permitia que os padres trabalhassem ou casassem.
Isto propiciou a difusão do catarismo, que clamava pela castidade absoluta, repelindo a autoridade papal, a culto às imagens e ao sacramento. Censuravam os poderes públicos e o direito de julgar e ordenar. Possuíam um ideal de Igreja Santa, com um sacerdócio purificado, vivendo em pobreza evangélica.
O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo). Henrique foi preso, porém , as maiores ameaças a Igreja se situavam em outras esferas. Os maiores aliados dos heréticos pareciam ser os cavaleiros, que os protegiam contra os ataques, da mesma forma agiam a maioria das casas nobres da região. A transmissão da heresia fazia-se de uma domus (casa) a outra, através da palavra falada. A palavra escrita era o meio mais elitista portanto de alcance reduzido.
Esta heresia foi extirpada com dificuldade, devido as relações de poder. As estruturas sociais e a cultura laica aceitavam as doutrinas propagadas pelos Perfeitos e os protegiam da repressão.
No início da repressão a Igreja lançava a excomunhão (pena espiritual que a Igreja aplicava ao pecado mortal da contumácia e da desobediência ao direito e ao juiz), como meio de  induzir  o poder secular a participar da perseguição e do combate aos hereges. Recorrendo mais tarde ao uso da violência, instituindo o Tribunal da Inquisição.    Os cátaros foram acusados de abalarem a ordem social existente, e de aspirarem a destruição da sociedade medieval e da humanidade. Pois condenavam o casamento, que teria como objetivo a procriação, porém os crentes podiam casar e ter filhos. Os padres não eram necessários, qualquer leigo poderia realizar um batismo. Acreditavam na existência de dois deuses (um do Bem, outro do Mal), sendo que a Igreja Católica era monoteísta. Renunciavam aos bens materiais, pregando o retorno ao cristianismo primitivo, estas divergências levaram a Igreja Católica a combater os cátaros.    A repressão as heresias foi estabelecida através de concílios, será abordado neste trabalho o III Concílio de Latrão (1179), e o IV Concílio de Latrão (1215), pois ambos excomungaram os cátaros.    O III Concílio de Latrão, foi convocado pelo papa Alexandre III, tendo como objetivo principal por fim a dissidência dentro da Igreja e a briga entre o imperador Frederico I (Barbaroxa) e o papado. O acordo firmado em Veneza (1177), finalizou o conflito que durou quase 20 anos. Este concílio surgiu após a morte do papa Adriano IV (1159), pois os cardeais haviam nomeado dois papas (Alexandre III e Victor IV). O imperador Frederico I, apoiou o papa Victor IV, declarando guerra aos estados italianos e especialmente a Igreja Romana que desfrutava de grande autoridade. Alexandre III, acabou vencendo o conflito e convoca um concílio para estabelecer a conclusão da paz.    Além de resolver a dissidência entre o papado e o imperador, o concílio também reforçou a unidade e o poder da Igreja. O cânone 27 desse concílio excomunga os hereges chamados cátaros, patarinos e publicanos e faz um apelo aos príncipes para que defendam a fé cristã. Os cátaros e seus seguidores estavam sob anátema, ninguém poderia ajudá-los ou abrigá-los em suas terras, pois alguns senhores feudais os protegiam. Se alguma pessoa morresse como herege não poderia ser recebido ou enterrado entre os cristãos, os bens dos hereges serão confiscados. Porém os hereges que se arrependessem obteriam o perdão e a recompensa eterna, sendo concedido indulgências para quem colaborasse na descoberta de hereges. Os bispos e padres que não combaterem os hereges e seus erros, seriam punidos com a perda de seus cargos, até obterem o perdão.    Neste concílio, também são excomungados no mesmo cânone os bandidos e mercenários que devastavam a província de Narbona, desrespeitando igrejas, maltratando crianças, viúvas e órfãos, como se fossem pagãos.    Mesmo que este concílio não tivesse a intenção da repressão armada contra os heréticos, estes são excomungados e deveriam receber o mesmo tratamento dispensado aos mercenários, pois ambos interferiam no poder da Igreja. Contudo, as decisões tomadas durante este concílio não são aplicadas e os legados do papa não conseguem impedir os progressos do catarismo no Languedoc.    Com a queda de Jerusalém em 1187, que passou as mãos dos infiéis, a heresia no Languedoc foi um pouco esquecida. Contudo, quando Inocêncio III assume em 1198 o trono pontifical enviaria novos legados a província de Narbona, recomeçando a repressão.    Em 1215, realiza-se o IV Concílio de Latrão, presidido pelo papa Inocêncio III. Neste concílio, são anatematizados novamente todos os hereges, os condenados serão entregues as regras seculares, e confiscadas suas propriedades. Os suspeitos de heresias a menos que provassem sua inocência através de uma defesa, serão anatematizados e evitados por todos até se justificarem, mas se estiverem sob excomunhão por um ano serão condenados como hereges. Autoridades seculares deveriam combater a heresia, caso contrário poderiam ser excomungados pelo bispo da província e se não se justificassem no prazo de um ano, o problema passaria ao supremo pontífice, que poderá oferecer o território para ser administrado por católicos fiéis. Os acusados de heresia não poderão tomar parte da vida pública, nem julgar ou herdar, nem eleger pessoas ou dar testemunhos em um tribunal de justiça. Este concílio acabará confirmando o que já havia sido proposto no III Concílio de Latrão, tentara repreender os hereges, através da exclusão da sociedade, instigando seus membros a participarem da repressão em nome da fé cristã, a excomunhão seria o princípio de um processo que se tornaria violento. Um processo que eliminará qualquer tentativa de fé que diferencie dos dogmas instituídos pela Igreja Católica.



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